Por que uma doença prevenível e curável continua avançando?
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) conhecida há séculos, com diagnóstico acessível, tratamento eficaz e formas de prevenção bem estabelecidas. Ainda assim, segue em expansão e representa um importante desafio para a saúde pública. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) revelam que, entre 2020 e 2022, os casos de sífilis em adultos de 15 a 49 anos aumentaram 30% nas Américas, região responsável por aproximadamente 42% dos novos casos registrados no mundo. No Brasil, boletins epidemiológicos e alertas recentes também apontam crescimento das notificações, reforçando a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Diante desse cenário, surge uma questão inevitável: por que uma doença prevenível e curável continua avançando? A resposta é multifatorial. O desconhecimento sobre a infecção, o estigma relacionado às ISTs, a baixa adesão às medidas preventivas, a procura tardia pelos serviços de saúde e a ausência de sintomas em grande parte da evolução da doença contribuem para a manutenção da cadeia de transmissão. Muitas pessoas permanecem infectadas sem saber e, consequentemente, podem transmitir a bactéria de forma involuntária.
Causada pela bactéria Treponema pallidum, a sífilis é transmitida principalmente por relações sexuais desprotegidas e também pode ocorrer por transmissão vertical, da gestante para o bebê durante a gestação ou o parto. A prevenção deve ser compreendida de forma integrada. O uso correto e consistente do preservativo reduz significativamente o risco de transmissão, mas deve estar associado à testagem periódica, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado dos pacientes e de seus parceiros sexuais. Essas medidas são fundamentais para interromper a circulação da infecção e reduzir seus impactos na saúde pública.
As manifestações clínicas variam conforme o estágio da doença. Na fase primária, é comum o aparecimento de uma pequena lesão indolor que desaparece espontaneamente, levando muitos pacientes a acreditarem, equivocadamente, que o problema foi resolvido. Nas fases seguintes, os sintomas podem ser discretos, inespecíficos ou até inexistentes por longos períodos. A ausência de sinais clínicos, entretanto, não significa ausência da doença, tornando o diagnóstico laboratorial indispensável para a identificação precoce da infecção.
Nesse contexto, o laboratório clínico exerce papel estratégico no enfrentamento da sífilis. A ampliação do acesso aos testes rápidos permitiu maior agilidade na identificação dos casos, especialmente na atenção primária à saúde. No entanto, a confirmação diagnóstica e o acompanhamento da resposta terapêutica dependem da correta interpretação dos exames sorológicos.
Entre os métodos laboratoriais, os testes não treponêmicos, como o VDRL, continuam sendo amplamente utilizados para triagem, determinação do título de anticorpos e monitoramento da resposta ao tratamento. Embora os testes treponêmicos apresentem maior especificidade para confirmar a infecção, o VDRL permanece indispensável por possibilitar a quantificação dos anticorpos, permitindo avaliar a atividade da doença e a eficácia do tratamento ao longo do tempo. A interpretação integrada desses exames, associada aos achados clínicos, proporciona maior precisão diagnóstica e direciona a conduta terapêutica de forma segura.
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Outro aspecto que merece atenção é a sífilis na gestação. Quando não diagnosticada e tratada precocemente, a infecção pode ser transmitida ao feto, ocasionando aborto espontâneo, natimortalidade, prematuridade, baixo peso ao nascer e outras complicações graves. Por isso, a realização dos exames durante o pré-natal, acompanhada do tratamento oportuno da gestante e de seu parceiro, representa uma das estratégias mais eficazes para prevenir a sífilis congênita e proteger a saúde materno-infantil.
O avanço da sífilis demonstra que combater essa infecção exige mais do que a disponibilidade de exames e medicamentos. É necessário investir continuamente em educação em saúde, ampliar o acesso à testagem, incentivar o uso de preservativos, reduzir o estigma relacionado às ISTs e fortalecer a qualidade do diagnóstico laboratorial.
Mais do que confirmar uma doença, o laboratório clínico desempenha um papel estratégico na interrupção da cadeia de transmissão, na proteção da saúde materno-infantil e na promoção da saúde pública. Em um cenário de crescimento dos casos, diagnosticar precocemente continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para transformar dados em prevenção e cuidado.
Dra. Ana Clara Cunha
CRBM 10956
anaclarancunha@gmail.com
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