Foi preciso que um grupo de empregadas domésticas se unissem numa alegre rebelião para que o Brasil acordasse para uma realidade: a empregada doméstica, que substituiu a velha “Bá" descartada pela Lei Áurea. Se a aristocracia brasileira preferia agir como avestruz - recusando-se a admitir, como empregados, os negros libertos, considerando uma imperdoável afronta tal relação, preferindo importar italianos, espanhóis e até japoneses - a República logo se instaurou, afirmando que somos todos iguais, independente do fato do nascimento ter ocorrido numa bela mansão, ou numa palafita da periferia.
E a “revolução das domésticas" demonstrou que, muito em breve, as nossas Madames estarão importando auxiliares de serviços gerais do Mercosul e Europa, pois não restará no País tal espécie de “colaboradores". A piauiense Maria Inês Pereira da Silva, por exemplo, saiu de casa aos 14 anos para trabalhar como empregada doméstica em Floriano, uma cidade vizinha à sua, Rio Grande. Apesar da pouca idade, sua responsabilidade era limpar os cômodos diariamente, lavar algumas roupas e cozinhar. Em vez de receber um salário no fim do mês, seu trabalho era remunerado principalmente com material escolar para frequentar as aulas em uma escola municipal da região. Decidida a avançar nos estudos, Maria Inês não reclamava das condições de trabalho, embora admita que a jornada era pesada para uma adolescente. Sem perder o foco, ela conseguiu concluir o equivalente ao ensino médio profissionalizante e, desde 1998, tornou-se professora da rede pública de Floriano, depois de passar em um concurso público.
Histórias como a de Maria Inês tornam-se cada vez mais frequentes no Brasil. O aumento da escolaridade média da população e um mercado de trabalho aquecido que possibilita a abertura de vagas em diversos setores contribuem para que um número crescente de empregados domésticos mudem de profissão, conforme explicou o gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cimar Azeredo.Para confirmar sua tese, ele citou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2011, divulgada pelo IBGE, que indicam queda no número de empregados domésticos em três anos. Somando 7,2 milhões de pessoas em 2009, o contingente caiu para 6,6 milhões em 2011. “Quando a pessoa se torna empregada doméstica, em geral, ela não é preparada para aquilo, ela não planejou que seria dessa forma, mas acaba arrumando o emprego e, por falta de opção, vai fazer o que aprendeu em consequência da sua própria condição social, que é arrumar, cozinhar, lavar roupa. Com um mercado de trabalho favorável, que abre outras portas, e com nível de escolaridade mais elevado, que lhes permite conquistar essas vagas, as pessoas estão migrando para outros setores, principalmente comércio e serviços", explicou.
Ao perceber o aumento na procura de mulheres, muitas vezes “desesperadas", por empregadas domésticas, a servidora pública federal Débora Castro decidiu administrar no Facebook uma lista e intermediar o contato entre as duas pontas. Ela recebe indicações de empregadas domésticas disponíveis e encaminha para as mulheres cadastradas, a maioria formada por mães com filhos pequenos. “Atualmente, a lista de babás tem 74 empregadas indicadas e praticamente o dobro de mães inscritas, que somam 141. Resolvi fazer a ponte porque percebemos que era muito grande o número de mães que precisavam de empregadas domésticas, principalmente com disponibilidade para dormir no serviço", contou.


