Na Baixada Fluminense, para enterrar um ente querido é preciso ter muita sorte. O problema parece ser insolúvel. A superlotação, má gestão e a falta de investimentos por parte do poder público parecem ser os principais fatores. Os moradores desses municípios não tem a opção de buscar o serviço em outros municípios, pois o problema é crônico e não é isolado, já se tornou comum nas principais cidades da região e na periferia. A população não sabe ao certo se as prefeituras não dispõem de meios ou não tem interesse algum em melhorar a situação.
O problema não se resume à falta de sepulturas, mas também de gavetas, a maioria improvisada no entorno da área por ele ocupada, construídas praticamente sem critérios. O abandono é um grande problema, obrigando familiares a fazerem mutirão para a limpeza dos túmulos, tomados por capim e lixo. Algumas delas, por serem muito rasas, expõem os caixões e ossadas, sem falar nos inúmeros casos em que não se consegue nem identificar o local correto onde estava sepultado o ente, pois a má administração impera em todos os setores da administração desses cemitérios.
PROBLEMAS CRÔNICOS - Na Baixada Fluminense, isso acontece nas principais cidades, como Belford Roxo, Magé, Nilópolis, São João de Meriti. São sepulturas destruídas, áreas completamente abandonadas, as ruas que cortam as quadras dos campos santos estão em muitos casos intransitáveis. Na hora de sepultar seus parentes as pessoas são obrigadas a fazer verdadeiras manobras desviando de lixo, mato, buracos e escombros, sem falar nos restos mortais que ficam expostos quando chove, e o mau cheiro é permanente. E o pior: com as chuvas mais fortes, as enxurradas acabam levando restos mortais para as residências localizadas próximas.
Outro problema grave é a falta de fiscalização do poder público, o que permite construções desordenadas, muitas encostadas aos campos santos. Em Belford Roxo, por exemplo, tem que esperar vaga para morrer. O cemitério local é superlotado e não tem espaço para abrigar novos mortos, só havendo vagas quando há exumações. Quando consultada, a prefeitura diz ter uma solução paliativa: construir 970 gavetas no entorno do terreno. Em Queimados, a situação também é crítica. Como a prefeitura não consegue aumentar a oferta, a prioridade é para moradores da cidade. Nilópolis é outra cidade onde a situação é dramática. Além da falta de vagas, o abandono do cemitério no bairro de Olinda é notório. Ali pode se ver túmulos descobertos e até restos mortais expostos a céu aberto. Em São João de Meriti, o problema maior é o abandono do Cemitério São Lázaro. O local é tomado pelo mato que serve de esconderijo para marginais e há acumulo de detritos, além de cruzes espalhadas aleatoriamente. Quando chove forte, a água costuma desenterrar ossos, segundo os moradores vizinhos.
A falta de ampliação dos campos-santos também parece ser um desafio insuperável em Duque de Caxias. Atualmente, são cinco cemitérios administrados pela Prefeitura. Além da falta de vagas, há casos até de sumiço de restos mortais, como aconteceu com Valmeri Moreira, sepultado no Tanque do Anil em 2006 e de onde foi retirado misteriosamente para a colocação do corpo de uma mulher, o estado de abandono do cemitério, Nossa Senhora das Graças (Corte Oito), é motivo de queixas freqüentes dos usuários. A falta de vagas no município é um problema que se agravou ao longo dos anos, quando os serviços funerários e a administração dos cemitérios eram uma exclusividade da Funerária Duque de Caxias, cassada pela justiça. Com o fim do monopólio, a administração dos cemitérios voltou às mãos da Prefeitura. A partir daí, novas funerárias se instalaram no município, o que fez a qualidade dos serviços dar um grande salto e é hoje reconhecida pela população. Porém, a falta de vagas e a conservação dos cemitérios parecem agravar a cada dia.
A solução dos problemas pode estar próxima
Assim como na Baixada, os problemas atingem também Niterói. Mato alto, ruas destruídas, lixo espalhado, falta de funcionários, remetendo a cenas de um terremoto, tamanha a destruição e quantidade de escombros. Segundo moradores, falta segurança e a família tem que ajudar os coveiros pois não há equipe. Para contratar serviços funerário, o interessado é obrigado a procurar uma floricultura, onde elas fazem seus escritórios. Os carros funerários, por sua vez, estão caindo aos pedaços.
Apesar de tantos problemas, a solução, ao que parece, poderá vir de lá. A cidade pode ganhar um novo forno crematório. A proposta faz parte de um relatório elaborado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Vereadores após uma série de vistorias nos cemitérios municipais de Maruí, no Barreto; São Francisco Xavier, em Charitas; e São Lázaro, em Itaipu. “A capacidade dos três cemitérios está praticamente esgotada. Não existem espaços disponíveis para ampliações. Por isso, estamos sugerindo a criação do crematório", esclarece o presidente da Comissão, vereador João Gustavo.
- Hoje temos um crematório particular na cidade. O serviço custa entre R$ 1.800 e R$ 2 mil. Estimo que este valor caia com a construção de outro crematório. Além de resolver a questão do espaço, no que se refere à saúde pública, a cremação é mais apropriada - completa o parlamentar. O Secretário de Saúde, Euclides Bueno, acha boa a idéia. “O município tem o maior interesse de solucionar as questões com a maior brevidade possível. A ajuda da comissão de vereadores tem sido muito importante", assinalou. A Fundação Municipal de Saúde informou que está em andamento o processo de licitação para obras de manutenção e ampliação no cemitério do Maruí. O projeto prevê a criação de 300 gavetas e 2.300 nichos.


