Parlamentares, advogados e jornalistas consideram nota de militares como “ameaça”
- jul 08, 2021
Além de Oziz e outros membros da CPI, parlamentares de diversos partidos reagiram, em postagens nas redes sociais
Em vídeo que circula nas redes sociais, o presidente da CPI da Saúde, senador Omar Aziz (PSD-AM) comentou sobre os ataques das Forças Armadas à CPI depois que ele disse publicamente que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua".
- Ninguém teve uma relação melhor do que eu, como Governador com as Forças Armadas no meu estado, mas convivi com grandes generais, general Villas Bôas, grande comandante do Exército Brasileiro, grande comandante. O que eu disse é pontual, que há muito tempo membros da Força Armada e alguns reformados não se falava um ai das Forças Armadas - começou o senador. “E hoje o ex-sargento aeronáutico foi depor e foi preso porque mentiu, foi o que pediu, um dólar com vacina. O coronel Élcio que está lá hoje. Foi o homem da Covaxin. Não tenho nada. Até vários pedidos para convocar o ministro da defesa Brega Neto. Não pautei nenhuma vez. Porque eu não entendo que o ministro Braga Neto pudesse contribuir na investigação. General Ramos, vai lá, tem vários pedidos. Em respeito às forças armadas. Não convoquei. Hoje, o Marcos do Val foi à minha mesa, me chamou atenção e eu refiz", continuou. “A nota é desproporcional. É muito desproporcional Senhor Presidente. Vossa excelência, como presidente do Senado, deveria dizer isso no seu discurso. Eu sou um membro dessa casa. Eu não aceito que intimide o senador da república. Era isso que eu esperava de vossa excelência", disse ao presidente do Senado Rodrigo Pacheco.
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Além de Oziz e outros membros da CPI, parlamentares de diversos partidos reagiram, em postagens nas redes sociais, aos ataques dos militares, que “prometeram reação “mais dura" contra o Congresso se membros do Legislativo denunciarem agentes das Forças Armadas envolvidos em atos de corrupção". Apesar de Omar Aziz ter deixado claro que suas declarações sobre militares corruptos referiam-se a alguns integrantes das Forças Armadas que atuam no governo e não à instituição, o comando militar aproveitou a oportunidade para tentar estabelecer um veto a qualquer investigação contra integrantes especialmente do Exército e emitiram na noite desta quarta-feira (7/7) com tom intimidatório. “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às Instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro", diz um trecho da nota.
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Advogados do grupo de prerrogativas também se manifestaram contra o ataque do Ministério da Defesa junto dos comandantes das Forças Armadas, a Omar Aziz. Segundo o grupo, que reúne juristas, professores e advogados, o documento tem “caráter institucionalmente anômalo e ameaçador", e tem objetivo de intimidar o livre exercício de senadores. “Trata-se, portanto, de ato de intromissão no funcionamento de um dos poderes da República – o Legislativo – que ora desempenha a sua incumbência de controle das ações do Executivo, conforme previsto no texto constitucional e atendendo a determinação do Poder Judiciário". “As Forças Armadas não são imunes a críticas. Ao contrário. Mantiveram uma ditadura por mais de duas décadas e até hoje parece que não conseguem conviver com os imperativos da democracia", acrescentou.
Jornalistas analisam militares no governo bolsonaro
Em artigos publicados depois da nota das Forças Armadas com ameaças à CPI da Covid e ao Congresso, jornalistas analisam a participação de militares no governo de Jair Bolsonaro e apontam que a gestão dos oficiais no Ministério da Saúde, em especial no combate à pandemia, é marcada por esquemas de corrupção.
O escândalo no Ministério da Saúde envolve, entre outros militares, o ex-ministro Eduardo Pazuello e o secretário executivo da pasta, coronel Élcio Franco. “O ex-secretário-executivo coronel Élcio Franco - aquele que usa o broche de uma caveira esfaqueada - estava no lado oposto ao de Ricardo Dias. Enquanto brasileiros morriam, vacina passara a ser uma moeda de troca numa disputa de poder", escreveu a jornalista Miriam Leitão, em sua coluna desta quinta-feira.
Já a jornalista Tereza Cruvinel questiona: “A nota [dos militares] termina dizendo que as Forças Armadas "não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro". E o que farão se ficar provado que alguns dos seus, ativos ou da reserva, participaram do esquema de corrupção que vai sendo desvendado no Ministério da Saúde? Vão fechar o Congresso ou dar uma prova de republicanismo, pregando a punição de todos, inclusive dos seus?".
Na visão da jornalista Cynara Menezes, “Quem enlameou as Forças Armadas foram os militares que se uniram ao governo sujo de Jair". “Defesa, que nada fez contra a militarização da Saúde, agora ameaça o país por não aceitar investigação de corrupção sobre os seus", acrescenta. O articulista Jeferson Miola faz um alerta em artigo. “Se não tiver uma reação contundente dos civis, os militares interpretarão isso como consentimento/indiferença passiva; ou como medo do poder fardado. Em quaisquer dessas hipóteses, o governo militar não hesitará em escalar novos degraus rumo a um regime fascista-militar".
O jornalista Merval Pereira, do Globo, dedicou sua coluna desta quinta-feira ao tema da corrupção militar no governo de Jair Bolsonaro. "Como uma pessoa como o cabo Dominguetti, que não sabe se expressar, escreve português errado, está à frente de um negócio de R$ 1,5 bilhão? A troco de que ele tem acesso ao segundo na hierarquia do Ministério da Saúde?", questiona. Leandro Demori, jornalista do site The Intercept Brasil, aponta a “parcela de ladrões no governo". "Tem 6.000 militares no governo. Muitos nas altas bocas de cargos de diretoria. Muitos em ministérios. Entre eles, como está ficando cada vez mais claro, há uma parcela de LADRÕES. As Forças Armadas podem lidar com isso como desejarem, até mesmo com mimimi".
O jornalista da Globo Octávio Guedes postou que "já temos ‘IPM rigoroso’ para apurar eventual envolvimento de militares em crime?! Ih, não! Agora é democracia. Tem CPI. Xiiiii". Sua referência é ao frustrado atentado militar do Riocentro que teve um inquérito do Exército que terminou dizendo que os culpados eram os alvos do atentado. As bombas, levadas ao complexo num carro esportivo civil Puma GTE, seriam plantadas no pavilhão pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Dias Machado. Com o evento já em andamento, uma das bombas explodiu prematuramente dentro do carro onde estavam os dois militares, no estacionamento do Riocentro, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão Machado.



