Numa trágica coincidência, no mesmo horário em que a Secretaria de Defesa Civil do município comemorava, na última quinta-feira (22) e em plena Praça do Pacificador, o “Dia Municipal para a Redução de Desastres", os moradores da Vila Maira Helena, no segundo distrito e a poucos metros das rodovias Rio-Petrópolis e Rio-Teresópolis, eram sacudidos pelas explosões que destruíram um depósito de inflamáveis que funcionava na semiclandestinidade em meio a dezenas de residências.
Em nota, a Agencia Nacional do Petróleo informou que a empresa Petrogold, dona do depósito em chamas, tinha registro naquele órgão e fora aprovada nas quatro últimas inspeções de rotina. O Instituto Estadual do Ambiente - INEA – por sua vez, informava, também em nota oficial, que a empresa não fora autorizada a funcionar, pois não fornecera todos os papéis necessários para isso. Assim, por falta de papel, a empresa operava clandestinamente, embora protegida por uma Licença Ambiental emitida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente em 2009.
Paraíso da burocracia, o Brasil dá mais importância a um simples papel timbrado, que tem o poder de abrir portas inclusive dos bancos oficiais, que ao fator mais importante, para o funcionamento seguro de uma empresa que estocava mais de dois milhões de litros de gasolina, biodiesel e álcool: ter uma brigada contra-incêndio e dispor de equipamentos e reservatórios de água para prevenir e até combater um foco de incêndio. A abertura de um Inquérito, prometida pelo prefeito Alexandre Cardoso, para apurar responsabilidades pela tragédia, que destruiu dezenas de casas e causou a morte de um funcionário da empresa e de outras sete pessoas, não servirá de consolo ou eficiente reparação às famílias que perderam tudo, inclusive um ente querido.
De nada adianta mobilizar dezenas de voluntários, equipamentos e fazer um excelente teste de exercício simulado de um desastre ambiental se, na prática, o risco de um acidente é considerado apenas como um dado estatístico, com base na teoria da probabilidade, do tipo discutir se um copo está meio cheio ou meio vazio. A exemplo do refrão de uma rede de supermercados, o que a população de Duque de Caxias, que já correu o risco de ganhar de presente um depósito de lixo atômico durante a Ditadura, exige é que as autoridades ditas responsáveis ajam antes da tragédia.
Até agora, as famílias que perderam tudo nos desmoronamentos de Angra do Reis, do Morro do Bumba, da Região Serrana do Rio de Janeiro e até de Xerém estão aguardando providências efetivas do Governo não só para reconstruir suas casas, mas também, e principalmente, que sejam adotadas Políticas de Prevenção de Desastres, como Centro de Monitoramento Climático, que pode evitar que famílias desapareçam sob escombros ou sejam arrastadas pelas enxurradas. Mandar mensagens pelo celular avisando que uma tempestade está a caminho é muito pouco para um Governo que gasta mais de um bilhão de reais para reconstruir o Estádio do Maracanã, mas não consegue recuperar um trecho de estrada de apenas 15 Km, ou fornecer água tratada e canalizada aos moradores da Vila Maria Helena, garantir a segurança dos moradores da Baixada Fluminense, creches para as mães operárias, ou, o que seria mais simples, um transporte coletivo eficiente, seguro e barato.
Os moradores de Vila Maria Helena merecem mais do que uma nota de pesar, ou a promessa de punir os culpados. Até hoje, ninguém foi punido pela tragédia do “Bateau Mouche", cujas origens foram exatamente as mesmas da tragédia da Vila Maria Helena: a omissão das autoridades no cumprimento do dever.


