O Brasil não será o mesmo depois que o Papa Francisco embarcar de volta para o Vaticano. Independente das convicções políticas e religiosas de cada brasileiro, o sucessor de Bento XVI deixará para todo nós uma importante lição: ele sabe ouvir e interpretar a voz das ruas. Enquanto prelados de diversos países colocam à venda carros de luxo que ocupavam as garagens das sedes episcopais, temerosos de serem expostos aos olhos da opinião pública pela ostentação que marca a atuação de nomes importantes do alto clero católico em todo o Mundo, o Papa Francisco determinava a atualização do Motu Proprio, o equivalente ao Código Penal da Igreja Católica. Nessa atualização, o Pontífice destacou crimes contra crianças e adolescentes, além do delito de lavagem de dinheiro. Essa legislação é válida para a Santa Sé e como regulamento do Vaticano. As mudanças ocorrem no momento em que a Igreja é cobrada a se posicionar sobre denúncias de pedofilia e desvios de recursos do Banco do Vaticano.
O Motu Proprio, cuja tradução livre significa de iniciativa própria, é expedido pelo papa e tem a forma de decreto. Na reforma, foram introduzidas menções ao crime de tortura e uma ampla definição da categoria de crimes contra crianças – incluindo a venda, prostituição, o recrutamento e a violência sexual, além de pornografia e dos atos sexuais. Na revisão do texto, o Pontífice acabou com a pena de prisão perpétua, considerada por ele inútil e desumana, que será substituída pela prisão de 30 a 35 anos. Também inclui um item específico para os crimes contra a humanidade com punições para genocídio e apartheid (regime de segregação racial).
O texto reformulou a legislação referente à cooperação judiciária internacional com a adoção de medidas adequadas de parcerias com as mais recentes convenções internacionais. Pelo código, há punições administrativas para a proteção dos interesses públicos. O Motu Proprio, segundo o Vaticano, estende a partir de 1º de setembro as leis penais aprovadas pela Comissão Pontifícia ao Estado da Cidade do Vaticano e a Santa Sé. A ideia é ter condições para definir punições por parte dos tribunais do Estado da Cidade do Vaticano em crimes previstos pelo Código Penal, mesmo no caso em que o fato tenha sido cometido fora das fronteiras do próprio Estado do Vaticano, como numa Igreja de uma remota cidade da Amazônia.
Essa sensibilidade para ouvir e interpretar o que dizem os fiéis em todo o Mundo resultou na recomendação para que os sacerdotes deixem o silêncio de seus gabinetes e confessionários para ir ao encontro do Povo nas ruas para ouvi-lo e orientá-lo sobre temas tão transcendentais como Educação, Saúde (inclusive Sexualidade e prevenção da AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis) Saneamento Básico, Meio Ambiente e respeito aos que tem maneiras diferentes de pensar, agir e se comportar.
Para o Papa Francisco, o padre deve ir aonde o povo está, como ensinam os versos do poeta Fernando Brant cantados por Milton Nascimento no clássico da MPB, “Bailes da Vida". Será que os políticos brasileiros estão preparados para “ouvir a voz das ruas" e mudarem o rumo das coisas por aqui como o Papa Francisco está fazendo com a milenar Igreja Católica?


