Uma jovem caxiense está circulando pela cidade com um carro zerinho, seu mais recente sonho de consumo. Foi um presente do seu pai que lhe custou a bagatela de R$ 35 mil. Com o valor disponível, ela saíra em campo nos últimos dias, visitando todos os feirões do Grande Rio e, desanimada, descobrira que com toda essa dinheirama, o máximo que conseguiria compara seria um desvalorizado e bem rodado modelo 2010 do carro dos seus sonhos: completo de tudo, isto é, ar, direção, vidros e travas elétricas e outros acessórios que fazem a alegria das concessionárias.
Não mais que de repente, a jovem descobriu uma loja de veículos importados, onde, pelos mesmos R$ 35 mil, teria um modelo 2012, com tudo a que havia sonhado, inclusive garantia de três anos. Ela não pensou duas vezes e fechou o negócio. Só aí que ela se deu conta de que havia uma fila de espera em que o carro só seria entregue num prazo de 90 dias. Ela estava quase desistindo da compra quando o atencioso vendedor explicou que, se ela pudesse ir a São Paulo, receberia as chaves do carro na hora.
Ela não titubeou e, pegando um avião da ponte aérea, aqueles que não fornecem nem barrinhas de cereais, partiu em busca do seu sonhado carro. Com as chaves nas mãos, ela só teve o trabalho de passar no posto de abastecimento mais próximo, encher o tanque de gasolina e botar o pé no acelerador. Como a Polícia Rodoviária Federal tem coisas mais importantes para fazer que fiscalizar os motoristas fãs da Fórmula 1, ela chegou a incríveis 180 quilômetros por hora em plena Rodovia Presidente Dutra. Só quando chegou em São João de Meriti, no acesso a Vilar dos Teles, a motorista descobriu que precisava fazer um "pit stop" para não parar na Linha Vermelha por falta de combustível.
Feliz da vida com seu possante e a descoberta de que fizera os mais de 400 quilômetros entre São Paulo e Rio com pouco mais de um tanque de gasolina (35 litros), ao preço de R$ 2,50 o litro, ela chegou em casa e conseguiu despertar a inveja de suas amigas por ter um caro Zero e “lindo de morrer", como ela mesma afirma.
Por mera coincidência, a compra desse carro importado coincidiu com a notícia de que as montadoras, mesmo contanto com o “empurrão" do Governo, através de facilidade de crédito para a compra de carros novos, não conseguiu manter a “velocidade de cruzeiro" do ano passado e decidiu dar férias coletivas para os empregados mais sortudos, pois muitos perderão e emprego. Só uma fábrica demitiu 200 empregados na última semana, diante da queda das vendas das últimas semanas. Aí acendeu a luz amarela no painel do Ministério da Fazenda: as demissões na industria automobilística significa um efeito cascata em outros ramos industriais, como siderurgia (aço), petroquímica (plástico), autopeças, revendedoras, além da queda do consumo de combustíveis, que afetam também á Petrobrás.
Até aqui, o chamado empresariado nacional não se preocupava com a supervalorização do Real, pois achava engraçado ver as filas nas portas das lojas de R$ 1,99, que comercializam produtos importados da “China", o que inclui Taiwan, Coréia do Sul, Vietnã, Indonésia e até o Paraguai, entreposto famoso pela triangulação entre mercados. Ocorre que a ofensiva chinesa para ganhar mercados importantes está deslocando desse mesmo mercado gigantes, como as siderúrgicas, nacionais, pois a Terra de Mao, importando a baixo custo o minério de ferro do Brasil, oferece aço (para fabricar navios e plataformas submarinas) a preços mais baixo que as siderúrgicas nacionais. Até a construção civil está na mira dos “neo comunistas" chineses, pois o uso de aço reduz o custo e o prazo da construção tanto de edifícios residenciais e comerciais, quanto de galpões para produção e armazenagem de inúmeros produtos.
A entrada dos automóveis chineses é apenas a ponta do iceberg chamado “farra dos importados". Até a Zona Franca de Manaus se rendeu ao modo chinês de produção em larga escala e a baixo custo, pois, nas áreas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos, as empresas ali instaladas estão importando o produto acabado de empresas montadas ao redor da China, como é o caso da Indonésia e até da Índia.
Hoje, quando você compra um aparelho telefônico sem fio baratinho, baratinho, pode ver na etiqueta que ele é “Made in China". O mesmo fenômeno se repete com brinquedos, bicicletas e outros produtos de grande consumo no País. Hoje, o verdadeiro “negócio da china" é montar uma empresa importadora, que trabalhe com produtos com preços competitivos e de baixa qualidade feitos na Ásia. O lucro é apenas do importador, que acaba gerando novos empregos... na China.


