A construção de um cemitério pela Prefeitura de Duque de Caxias, às margens Rodovia Washington Luiz, virou também um caso de polícia. Na terça-feira (12), agentes da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) estiveram no local, a pedido do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP), para levantar informações para a investigação da denúncia de crime ambiental feita pelo proprietário do terreno.
A promotora Carla Carrubba pediu ainda que o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), as Secretarias Municipais de Meio Ambiente, de Obras e de Habitação, e o Grupo de Apoio aos Promotores de Justiça (GAP), fizessem um relatório sobre a construção do cemitério. Paralelamente, decisão do desembargador Luiz Henrique Oliveira Marques, da 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, proibiu a Prefeitura de colocar o cemitério em funcionamento. A medida, determinada no último dia 11, foi comunicada oficialmente ao prefeito Washington Reis na manhã de quarta-feira (13) através de oficial de justiça.
INVASÃO - Logo que tomou conhecimento do início das obras, o empresário Sebastião Carlos Grusman registrou ocorrência na DPMA, da Polícia Civil, no dia 17 de julho (RO nº 200-00264/2017), comunicando a invasão da área por parte da Prefeitura, além de desmatamento e aterramento. Segundo ele, houve destruição e danos em local de preservação permanente e construção em solo não edificável. A área total, superior a 40.000m2, está localizada às margens da Rodovia Washington Luiz, ao lado do Canal Guanabara. Moradores que residem na região do outro lado da rodovia dizem estar com medo das chuvas quando chegar o verão, pois afirmam que com a obra a prefeitura estreitou o canal diminuindo a vazão.
O empresário afirmou estar recorrendo à justiça com ação de reintegração de posse da propriedade. Durante a entrevista concedida ao Capital no mesmo dia que registrou a ocorrência na DPMA, Sebastião Grusman apresentou vários documentos para comprovar a propriedade do terreno, como Guia de Recolhimento da União (GRU), Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR) do INCRA, Guia de IPTU (Prefeitura de Duque de Caxias), Nada Consta do Ministério da Marinha em seu nome e Escritura de Cessão de Posse emitida pelo 7º Ofício de Notas de Nova Iguaçú. Exibiu ainda fotografias comprovando a intervenção de máquinas no local.
Em reportagem do “RJTV" exibida terça-feira (12), o repórter André Trigueiro perguntou ao prefeito Washington Reis quanto está sendo gasto na construção e qual a previsão de custo anual para manter o cemitério. O prefeito informou que gastou R$ 650.000,00 para a construção e que serão gastos R$ 8.000.000,00 anualmente. “O município cortou benefícios dos professores dizendo que não tem como manter a folha, está com salário dos servidores atrasados, pagamento a fornecedores também em atraso, a cooperativa que presta serviço para a prefeitura tem dois meses em atraso, a defensoria pública processou a prefeitura por problemas encontrados na saúde e o prefeito está gastando em cemitério?", comentou um leitor através do WhatsApp do Capital. “Isso só pode ser piada", acrescentou.
O famoso personagem da TV e do cinema volta à cena
A ideia de construir um novo cemitério - o município já possui cinco - trouxe de volta o hilário personagem criado por Dias Gomes e que marcou a televisão brasileira nas décadas de 70 e 80: Odorico Paraguaçu. Interpretado pelo veterano ator Paulo Gracindo, Odorico ficou famoso na telenovela “O Bem-Amado", exibida por dez meses durante o ano de 1973. O elenco era de primeiríssima qualidade, reunindo outros consagrados atores, como Ana Ariel, Dirce Migliaccio, Dorinha Duval, Emiliano Queiroz, Gracindo Junior, Ida Gomes, Jardel Filho, Lima Duarte, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Sandra Bréa e Zilka Salaberry. O sucesso foi tanto que transformou-se em um seriado que ficou no ar por cerca de quatro anos na mesma Rede Globo de Televisão, com o mesmo elenco. Por fim, virou filme em 2010, sob a direção de Guel Arraes, desta vez tendo Marco Nanini no papel do prefeito que sonhava inaugurar um cemitério. Mais uma vez o sucesso não parou aí: a Rede Globo produziu uma minissérie de quatro capítulos com as cenas do filme, que foram ao ar entre em janeiro de 2011.
O personagem Odorico Paraguaçu praticamente todo os brasileiros conhecem. Candidato a prefeito da cidade fictícia de Sucupira, fez uma promessa de campanha que ao longo de seu mandato não conseguiu cumprir: a inauguração de um cemitério. Ele retratava um político corrupto e cheio de artimanhas, como infelizmente vemos nos dias de hoje no cenário político. Não faltam bajuladores como o secretário Dirceu Borboleta e as irmãs Cajazeiras: Doroteia, Dulcineia e Judiceia. Do outro lado, uma forte oposição articulada pela delegada Donana Medrado e pelo dentista Lulu Gouveia, inimigo mortal do prefeito e líder da oposição na Câmara, além do proprietário do jornal “A Trombeta", Neco Pedreira, que teve o pai assassinado no passado pelo prefeito. Tinha ainda outros personagens divertidos como o Nezinho do Jegue, defensor de Odorico quando estava sóbrio e acusador quando bêbado, e o antológico Zeca Diabo, pistoleiro.
Maquiavelicamente, Odorico arma tramas para que morra alguém para inaugurar o tal cemitério, sendo sempre mal-sucedido. Como se não bastasse, Odorico ainda enfrentava desaforos de Juarez Leão, médico da oposição que se envolve com sua filha Telma e faz um bom trabalho na cidade salvando vidas, para desespero do prefeito.
“O Bem Amado" destacou-se como um dos melhores trabalhos exibidos pela televisão brasileira, traçando um paralelo com a gestão pública contemporânea, construída e gerida por pessoas tomadas por delírios. Como se vê, a ficção e a realidade se confundem, e o personagem Odorico nunca foi tão atual.
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